segunda-feira, 7 de março de 2011

(Auto)Claves – Proibido tocar Stairway to Heaven

            Dando continuidade ao texto anterior, quando se aprende a tocar violão, de inicio há um repertório básico de músicas que podem ser executadas com facilidade e serem bem aceitas em qualquer rodinha de badauê! Como meu processo de aprendizagem foi grupal – no melhor sentido da palavra – entre amigos almiscarados, aprender música era um verdadeiro momento de troca.
           
Em um desses incontáveis momentos, um dos amigos apresentou uma novidade incrível, uma música com acordes “complexos” e um dedilhado encantador. Stairway to Heaven. Foi um frenesi! O som parecia vinda de um flautista mágico, todos desejavam aprender aquela canção e juntar-se a ela.


“Your head is humming and it won't go
In case you don't know, the piper's calling you to join him”

            Foi uma jornada árdua, como para qualquer principiante, os dedos latejavam, mas o resultado era encantador. Perceber que seus próprios dedos eram capazes de reproduzir tal canção era uma ótima recompensa. Com alguns meses todos os membros do grupo sabiam tocá-la. Mas isto banalizaria a canção? Isto tornaria a obra vulgar? Não exatamente.

            Era obvio que aprender a executar cada acorde, conhecer cada detalhe do dedilhado, reduzia em partes a magia da música. Mas devo dizer que ela ganhou um significado a mais, único. Em certa medida diferente do original.

            Na biografia Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra de Mick Wall há destaque para um trecho de uma entrevista de Jimmy Page que admite que há muita coisa envolvida entre o grupo, o público e suas canções – “Uma energia incrível que vai aumentando e o público vai ficando eufórico (...) É uma coisa evocativa  e é como ser invocado”. A relação de Page com o oculto não é tão oculta assim há muitas décadas e devo admitir que para mim Stairway to Heaven é de fato um hino de evocação, embora não me remeta a nenhum caráter exotérico.



            Esta canção evoca lembranças tão agradáveis! Evoca amigos, gargalhadas, companheirismo. Evoca acordes sendo dedilhados por adolescentes sentados em um banco sob uma amendoeira.

Oh, it makes me wonder
Oh, it makes me wonder”


As coisas adquirem os significados que desejamos, elas se transformam nos signos que nos convêm. E não foi diferente com esta música. Com o passar dos anos tocar Stairway to Heaven tornou-se um pecado capital, quer dizer...não exatamente, na verdade tornou-se uma piada. Hoje, dedilhar o lá menor introdutório de imediato desencadeia uma série de risadas, porque a canção se tornou banal demais! Banalidade essa nos nossos dedos. Porque pelo menos aos meus ouvidos estes acodes  me remete a dias especiais.



Rodrigo Vasconcelos

Nenhum comentário: